Professor tem que formar e informar

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Uma aula muito especial que vai além do conteúdo comum e ajuda os alunos a desenvolverem o senso crítico

Alunos na classe

Professor Barletta dando a aula sobre o cotidiano para os alunos do Colégio São Judas Tadeu.

Sexta-feira, 14 horas de um sol escaldante. Verão em São Paulo chega a ser assustador. Estava, mais precisamente, no bairro da Mooca, Rua Clark, 213, Colégio São Judas Tadeu… e nessa hora, é tempo de quê?

Hora de absorver um conteúdo que prende a sua atenção do começo ao fim. E esse tempo poderia ser o quanto fosse que os alunos e eu ali continuariam.

O primeiro resquício de que a atenção estava nele era: nenhum aluno estava  disperso. Todos a postos prestando a máxima atenção com afinco no consumo do conteúdo.

A aula é de atualidades. Um resumão do que está acontecendo no Brasil e no mundo a fim de preparar os alunos para provas como Enem, vestibular e claro… ajudar a desenvolver o senso crítico de jovens que ainda não foram além dos muros da escola, mas que quando saírem irão precisar de discernimento para interpretar e opinar. Cidadãos que terão muito mais do que opiniões baseadas em ideias rasas. Cidadãos que saberão ajudar a si e ao próximo com ideologias embasadas em fatos históricos.

Quando eu entrei na sala, me senti como há 15 anos quando eu ainda estava no terceiro ano. Lembrei que minha sala de aula era a mesma, no quesito comportamento social. Os mesmos grupinhos divididos por afinidade. Meninos de um lado, meninas do outro. Lembrei que eu sentava no fundo para poder conversar e bagunçar. Quem nunca fez isso, né?

O diferente é que nessa aula não tem conversa paralela. Nessa aula não tem dispersão e não tem ‘’pessoal do fundo”. Cada conteúdo apresentado por ele é consumido, discutido e entendido. Em duas horas falou-se desde a crise da polícia no Espírito Santo, abordando o contexto histórico-político do Brasil, viajando para o Golfo Pérsico, mais precisamente no estreito de Ormuz, passando pelo Trump e suas loucuras até voltar para o Brasil e terminar a aula em Sérgio Cabral e suas peripécias monetárias.

Mas, quem é ele? Quem é esse professor que prende a atenção dos alunos e que prendeu a minha?

Seu nome é Carlos Geraldo Gaetano Barletta Júnior, descendente de italianos e portugueses, mooquense apaixonado e geografo formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Eu, como curiosa e jornalista que sou, não poderia deixar de falar com ele, por alguns instantes para entender a fundo esse “poder de atração” que ele exerce em jovens que têm um ótimo repertório de desculpas para deixar o estudo para depois.

Alunos na aula do professor Barletta

Durante a aula o professor Barletta, faz alguns questionamentos para relembrar os alunos sobre o conteúdo da aula.

Confira abaixo a entrevista:

Carolina: A sua aula é sobre atualidades, preparatória para Enem, vestibular e conhecimentos gerais?

 

Barletta: além disso, para ter uma visão da realidade que está envolvendo hoje o mundo para o aluno poder também questionar e não só ver a informação na TV e não saber do que se trata!

 

Carolina: Eu quero entender então, como é que você vê a geração millennials, com base nos seus alunos. Como é que você enxerga o desenvolvimento histórico e político delas? Você consegue ver essa interação na sua aula?

 

Barletta: Bom, eu vejo um pessoal participativo, você percebeu pelas perguntas que eles estão fazendo. Participativos, interessados, um pessoal que quer entender toda essa dinâmica que está ocorrendo hoje no país, todas essas mudanças que vão passando ano após ano. Eles questionam, eles perguntam e muitas vezes não dá para a gente abordar tudo, então o que você tem que fazer: pesquisar, procurar, vai ler determinada fonte… e se você tiver dúvida, pergunta. Hoje vocês têm o que? A internet! Vocês viram quanta coisa a gente vai mostrando.

A gente vai puxando tudo pela internet. Só que para isso eu preciso também saber tudo. Eu “vou e volto”, para não ficar cansativo. Mostrar o que é uma coisa, o que é outra, porque pode fazer isso ou não. Agora, eles querem participar, eles querem vivenciar, até mesmo da importância que ele tem hoje como cidadão. Uma coisa que eu sempre digo para eles: o país poderia realizar muito plebiscito por exemplo, a gente não faz. O que é o plebiscito? É um tema relevante que não é o governo quem decide, é quem? É a sociedade. Você tem quantos anos?

 

Carolina: 30 anos

 

Barletta: Teve o de 2006 que foi das?

 

Carolina: Armas

 

Barletta: 1993, que a gente foi decidir para o parlamentarismo e presidencialismo ou monarquia, que foi em 21 de abril e teve outro em 1963 do João Goulart. Quando devia ser uma coisa comum, tipo: a questão da redução da maioridade. Faz um plebiscito ou faz um referendo! Não é governo, é o povo que tem que decidir.

 

Carolina: Uma questão que eu vi aqui. Nenhum aluno estava disperso. Todos estavam participando da aula avidamente, mas óbvio que isso é uma amostra da sociedade. A gente sabe que esses jovens normalmente não atuam assim com relação a educação acadêmica. Qual o seu ponto de vista então, de como atrair a atenção desses jovens? Por que você conseguiu!

Barletta: Você conta fatos desconhecidos e você mostra imagens! Você pode reparar, eu pouco dito, eu faço o quê? Mostro imagens. Porque a pessoa marca bem a imagem, então ele tem a imagem na cabeça e ela consegue sintetizar. Se você pega um texto e lê e vai sintetizar, você já não consegue fazer. Vai ler um texto sobre a crise econômica, o aluno olha, leu e vai colocar no papel, ele tem dificuldade. Aí você vai mostrando as imagens. O texto fica mais difícil. As imagens são uma forma que eu utilizo para atrair a atenção deles.

 

Carolina: Você está trabalhando com cidadãos também certo? Você entende que o respeito aos jovens pode ser uma ótima saída para atrair a atenção?

 

Barletta: Exatamente! Têm que ser responsáveis. Chega um rapaz e pede para ir ao banheiro. Claro que eu não vou dizer que ele não vai. Não vou questionar se ele precisa mesmo… se ele está pedindo, ele precisa ir. Meus alunos têm livre arbítrio para entrar e sair a hora que bem entenderem. Eles precisam ser responsáveis.

 

Carolina: Para você, entrando um pouco no contexto da educação, qual é o papel… como é que a gente poderia transformar a educação do Brasil em algo realmente útil, tal qual você faz aqui?

 

Barletta: O professor tem que ser primeiro um informador. Ele tem que formar e informar, primeiro detalhe eu vejo por esse. O segundo, ele tem que mostrar um caminho de diferentes visões. Vou ser muito transparente. Quando a gente vai tratar de temas como por exemplo: a ditadura militar no Brasil. As pessoas costumam falar “O Golpe de 64”. Eu não trato como um golpe, eu digo o quê? A revolução de 64. Aí eu mostro o porquê eu chamo aquilo de uma revolução. Então mostro o lado bom e o lado ruim da coisa toda. Daí depois você tira um parâmetro. Ouvimos muito na mídia: “O golpe da Dilma”.

 

Barletta, além de ser um bom professor, tem também um desejo social de que as coisas melhorem. Em algum tempo do nosso bate papo, ele discorreu sobre tempos longínquos e nos deixou com aquele saudosismo que seria muito bom se fosse presente. Assim, as coisas poderiam ser melhores.

 

Barletta: Para a gente que mora aqui na Mooca, não sei se você conhece a rua Barretos…

 

Carolina: Sim!

 

Barletta: Eu morava entre a rua Natal e Oratório. Fui morar nessa casa em 1972, e a casa é bem diferente do que é hoje! E eu conto para meus alunos que o portão da minha casa era pequeno, minha mãe deixava uma cordinha para fora da porta, pra gente puxar e poder entrar, porque só tinha uma fechadura que abria por dentro. Época de verão como hoje, a gente deixava as janelas de casa abertas, meu pai deixava aberta por causa do calor e para ventilar a casa.

A noite toda aquilo ficava aberto e não acontecia nada! Porque hoje a sociedade mudou? É isso que eu tento entender, que eu pensava, poxa, eu vivi em um período de ditadura que não acontecia isso. Como é uma democracia, como um Estado de direitos, como as pessoas sabem como agir e como fazer, porque a coisa não evoluiu para melhor?

 

Carolina: A gente não vê isso por conta de uma monarquia social então?

 

Barletta: É um contexto social muito grave que a gente está vivendo no país e que vem de muitas décadas. A desigualdade se aprofundou, a educação não está funcionando, a saúde não funciona, então como a gente vai resgatar tudo isso? Agora o que fez o Estado nos últimos anos? Inseriu programas de ajuda, tipo o Bolsa Família, ao qual eu sou favorável! Só que com um detalhe: na vida tudo tem começo meio e fim, você vai ajudar o Bolsa Família, o que você vai fazer? O cidadão recebe por um período de 5 anos, nesses 5 anos, vai se qualificar e depois o que acontece? Acabou! Quando começou o Bolsa Família, eram 4 milhões de famílias, hoje são 11 milhões. O programa não devia aumentar, deveria reduzir.

 

Carolina: Você acha que hoje o maior problema do Brasil é a ausência de uma educação de qualidade?

 

Barletta: Eu acho que com certeza é a educação! Porque eu vejo que a educação resolve os outros problemas. Você começando a ter educação, você vai melhorando tudo paulatinamente.

 

Carolina: Certo…

 

Barletta: Eu acho que a educação é a base! Tendo essa base, você vai formar mais jovens cidadãos com a cabeça diferente. É fundamental e a história mostra: todos os estados que investiram na educação o que ocorreu? Deu um salto de crescimento! Crescimento econômico, crescimento intelectual, a qualidade de vida melhorou… tudo! Porque houve esse salto educacional. Essa proposta que o governo está fazendo do ensino médio que foi aprovado pelo Presidente Temer…

 

Carolina: Você concorda com isso?

 

Barletta: Eu não acho uma proposta ruim, eu acho uma proposta boa! Por quê? O aluno tem um ano e meio do ensino médio e depois vai direcionar o que ele quer. Com que objetivo? Você ter um melhor profissional para a universidade.

 

Carolina: Ele já está mais certo do que quer, então…

 

Barletta: É um aluno mais formado. De que adianta você enche-lo com conhecimento geográfico se ele quer ser um engenheiro. Que que adianta eu falar para ele soma de vetores se ele quer ser um advogado? No que vai ser aplicável para ele? Nada! Então eu vejo, um ano e meio, são mil e oitocentas horas. Dá para dar uma formação legal e depois você direciona o que ele quer. E uma coisa também, o que acontece hoje com o conhecimento? Ele expandiu muito, não tem como você passar tudo. Não tem como você passar tudo isso! Tem que segmentar mesmo.

 

Barletta, conclui nosso bate papo falando: “o berço da sabedoria e do conhecimento”. Uma aula de vida, de conhecimento e, acima de tudo, aprendizado para a vida. No dia 17 de fevereiro, data dessa aula e bate papo, o professor completou 31 anos de vida acadêmica no colégio São Judas Tadeu. Fica então nossa homenagem e nosso “muito obrigado” por todo o ensinamento de uma vida.

Gostou da entrevista do nosso Professor Barletta? Esperamos que sim! Se você está procurando escola na Mooca, conheça o Colégio São Judas Tadeu, que é uma escola com base em qualidade e cheia de vida igual ao professor Barletta.

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