Educar para crescer

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Criação, Coordenação e Texto: So Ham – Comunicação para Educação
Revista Geração São Judas – Ano IV nº10 – Jun/2012

O conceito de avaliação mudou ao longo do tempo. Hoje, além de ajudar a acompanhar o conhecimento do aluno, ela também é parte do processo de aprendizagem

Avaliar é algo complexo. Como descobrir o que um estudante sabe? E, mais que isso, de que maneira transformar conceitos qualitativos (como o conhecimento) em uma expressão quantitativa (a nota), sem cometer injustiças ou sem tornar o processo vazio de sentido? Por muito tempo, a avaliação foi entendida como um momento específico do processo escolar, praticamente terminativo (aplicado apenas no fim de ciclos escolares), no qual se utilizava um instrumento de avaliação escrito (a prova). Geralmente, as provas eram compostas de perguntas bastante previsíveis e não exigiam do aluno mais do que uma memória de elefante. “Hoje, uma das funções primordiais da avaliação é levar o educando a pensar, a ler e a interpretar, de forma que não apenas memorize conhecimentos e informações, mas que realmente os compreenda e consiga debater a respeito”, afirma a coordenadora pedagógica Mônica Miotto Bertolini.

Atualmente, a avaliação é entendida como algo processual e não é mais reduzida a uma ou duas provas. A avaliação escrita é uma das muitas estratégias (ou instrumentos) de que o professor pode lançar mão para analisar o desenvolvimento acadêmico de sua turma. Sendo mais ampla, ela engloba, além dos conteúdos didáticos, a observação atenta – e diária – de cada um, além de avaliações contínuas. “Tão ou mais importante quanto o conteúdo em si é o desenvolvimento das habilidades de questionamento, experimento, interpretação, reflexão e crítica ao que é proposto. A avaliação não deve ser usada como uma ferramenta para estratificar o corpo discente, mas sim para construir também o conhecimento”, afirma o professor de matemática do Ensino Médio Eurico Ruivo. Por isso, no intuito de aprimorar ainda mais o ensino, desde o início do ano, o Colégio São Judas Tadeu implantou mudanças significativas na forma de organizar as avaliações escritas e demais instrumentos de avaliação.

 

Mudar para melhor

A primeira avaliação (trimestral), ministrada pelos professores regentes ou pelos especialistas de cada disciplina, é organizada para contemplar quatro eixos fundamentais: interpretação de texto, questões dissertativas, exercícios e questões de múltipla escolha. Os valores atribuídos às questões, bem como o número delas, são decididos pelo professor. Essa prova, na composição geral da nota do aluno em cada disciplina, equivale ao máximo de seis pontos (ou 60% da nota). A prova trimestral tem duração prevista entre 70 e 90 minutos. Até o modo de organizar os estudantes em sala de aula mudou: alunos de números pares e ímpares e de anos distintos ficam em fileiras intercaladas.

A segunda avaliação – a grande novidade – é a chamada Prova Multidisciplinar, que compõe dois pontos da nota total (ou 20%). Trata-se de um instrumento avaliativo que engloba questões de todas as disciplinas e que ocorre sempre depois da avaliação trimestral. Esse instrumento é desenhado para que sua conclusão seja entre 150 e 200 minutos. O intuito é ajudar o aluno a administrar o tempo em uma avaliação extensa, preparando-o para as futuras provas de admissão no Ensino Superior, como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou o vestibular. “Na prova multidisciplinar, os alunos têm dois minutos e meio para responder a cada questão. No Enem, o tempo é de três minutos”, afirma o diretor adjunto José Ribeiro Filho.

Os outros 20% da nota (que somam dois pontos) são alcançados por meio de trabalhos e atividades de naturezas diversas, a critério do professor, de acordo com seu planejamento e suas estratégias para cada turma. As provas podem ser levadas para casa, para que o estudante tenha oportunidade de rever os conteúdos necessários – e para que a família também possa acompanhar mais de perto o que ele está aprendendo e como está o seu rendimento escolar. Depois que todas as notas foram obtidas, é feita a somatória para compor a nota final do estudante. A média escolar é seis por trimestre, devendo-se somar 18 pontos ao fim do ano letivo. É importante ressaltar que, se for considerada apenas a média, 1/3 da nota do estudante pode ser obtida pelo simples fato de ele participar das aulas e fazer as atividades complementares (dois pontos).

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Outro aspecto da avaliação que pouca gente leva em consideração, mas que é fundamental, é o registro da vida acadêmica dos alunos. Está tudo no prontuário: faltas, infrações disciplinares, presença nas aulas de reforço, comunicação com os pais… “Se um aluno não fez a tarefa, por exemplo, nós sabemos a data da ocorrência e também registramos a medida tomada pela escola. Anotamos, por exemplo, quantas vezes um estudante se inscreveu em aulas de reforço e a quantas ele realmente assistiu. Isso dá uma boa medida do interesse e do compromisso dele com seu processo escolar”, explica Ribeiro. Apesar de não constar das notas trimestrais, essas informações são relevantes caso ele não atinja a nota mínima para passar de ano e seja preciso passar pelo Conselho Escolar. Esse momento em que o Conselho se reúne também é importante na avaliação.

Avaliar todos os dias

Muita gente, por confundir avaliação com provas, imagina que na Educação Infantil isso não ocorra. Nessa etapa, ela se dá diariamente, por meio da observação do desenvolvimento, do comportamento e da produção da criança. Para isso, em vez de boletins com notas, são usadas fichas de avaliação que podem ser facilmente interpretadas pela família. Cada etapa tem uma ficha específica, de acordo com as aprendizagens próprias para a idade. “Cada detalhe conta. Se uma criança de 1 ano e meio, ao pegar de maneira errada no lápis, conserta a postura sem a minha interferência, é um avanço. A avaliação é observação diária de vários aspectos”, diz a professora Simone Dias.

Na ficha de cada aluno, é considerada a conduta em sala de aula, além do desenvolvimento cognitivo, psicomotor, social e de linguagem. Cada um desses tópicos traz uma lista de especificidades que são avaliadas pelo professor em “sim”, “não” e “às vezes”. Cabem também observações, quando necessário. Dessa forma simples e objetiva, as famílias podem perceber que na Educação Infantil são trabalhados conteúdos importantíssimos para o desenvolvimento humano e escolar da criança. “Também é uma oportunidade de os responsáveis se envolverem e estabelecerem parceria com a escola, participando efetivamente da educação dos filhos”, afirma Cibele Cortelli Trigueirinho, diretora da Educação Infantil.

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A professora Simone Gusman Gomes, professora do 3° ano do Ensino Fundamental, explica que, além dos conteúdos didáticos, a conduta do aluno é levada em consideração em todas as disciplinas. “Ética é um componente curricular. Trabalhamos a boa conduta, trazendo para a sala de aula situações, leituras e projetos com a finalidade de formar cidadãos éticos. Isso gera nota também”, explica. “A avaliação contínua, ou seja, a observação da execução das tarefas, o acompanhamento dos responsáveis no estudo diário, o interesse e a participação do aluno nas atividades nos fornecem meios para a composição da nota final.”

Essa observação, no entanto, não deve ser confundida com um meio de punição. “Atribuir ou não pontos a uma pessoa baseando-se em seu padrão comportamental nada mais é que uma redução da educação e da avaliação a um sistema de recompensa/punição que, em realidade, não passa de condicionamento forçado. Se existe um comportamento presumidamente inadequado, ele não deve ser punido, absolutamente, por destituição de uma parte da nota. Não cabe ao docente punir, mas educar, aproximar-se do estudante, procurar entendê-lo e trabalhar conjuntamente com ele”, diz Eurico.

O outro fazer pedagógico

A mudança na composição das notas e nas próprias avaliações também gerou, naturalmente, mudanças na maneira como os professores planejam e dão suas aulas. “Eles buscam diariamente instrumentos para motivar e envolver os alunos, como aulas interativas, uso da internet, realização de experimentos e passeios pedagógicos. A avaliação escrita é apenas um dos resultados para comprovar a aprendizagem”, explica Mônica. “Além disso, as questões das provas também precisam ser relevantes ao estudante, pois as avaliações servem para verificar se o aluno deu significado àquilo que aprendeu. Verificamos a construção do conhecimento, e não o acúmulo de dados”, explica Sineide Esteves Peinado, diretora de Ensino Fundamental.

A professora de Língua Portuguesa (gramática e técnicas de redação) Maria Paula Del Bianco, do Ensino Fundamental (6º e 8º anos), destaca que a vantagem das provas é que o professor tem condições de observar não só os conteúdos da disciplina, mas também a escrita do aluno. “Já a multidisciplinar não oferece essa oportunidade, pois ele marca apenas a alternativa escolhida. Por outro lado, esse tipo de prova requer um enunciado perfeito e a alternância entre eles”, afirma.

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Para o professor Eurico, a mudança no calendário das avaliações e o aumento da robustez de cada uma em particular tornam necessários o acompanhamento adequado e bastante próximo do desenvolvimento do estudante ao longo do trimestre. “Considero um aspecto bastante positivo, dado que possíveis dificuldades de aprendizado e a absorção do conteúdo por parte dos discentes podem ser observados de maneira mais adequada e contínua. Não se pode exigir, por exemplo, que o estudante se adapte por si só ao novo sistema, mas a adaptação deve ser feita conjuntamente, com discente e docente lado a lado”, conclui.

O valor da argumentação

Os nossos vestibulares permitem o uso da opinião crítica? Sim, mas somente uma vez: durante a redação (parte de maior peso na maioria dos vestibulares). As disciplinas de Filosofia e Sociologia têm, por princípio, a formação da opinião com base numa perspectiva constantemente questionadora das relações no mundo em que vivemos. A argumentação coerente e imparcial é a principal ferramenta para ambas; estimular as conexões entre bons argumentos críticos e retirar delas conclusões é o verdadeiro papel dessas disciplinas. Pensando nisso, as avaliações trimestrais de Sociologia dos segundos anos (manhã) e de Filosofia dos 3o anos (manhã) do Ensino Médio conterão questões argumentativas que permitam o uso da opinião crítica. Essa iniciativa pretende valorizar e incentivar o vínculo entre os argumentos, a coerência, a clareza e a objetividade em defesa de um juízo pessoal que relacione as ideias do aluno com o contexto do mundo em que ele vive, preparando-o para uma boa redação. Quando incentivamos no adolescente o hábito de analisar as relações objetivas e de se posicionar diante delas, asseguramos sua participação na sociedade ao longo de toda sua vida, orientando, principalmente, a sua formação pessoal – objetivo maior do bom educador.

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